Sim — e o motivo diz muito sobre como cuidamos
Existe uma ideia muito comum de que só o câncer “de boca” ou “de cabeça e pescoço” traz problemas na boca. Não é verdade. A quimioterapia do câncer de mama afeta a boca — e entender por quê ajuda a se preparar.
A quimioterapia não age só onde está o tumor. O remédio entra na corrente sanguínea e circula pelo corpo inteiro para alcançar qualquer célula cancerígena que possa ter se espalhado. No caminho, ele atinge também as células saudáveis que se dividem rápido — e as células que forram a boca são exatamente assim, de renovação veloz. Por isso a boca sente o tratamento, independentemente de o câncer ser na mama, no intestino, no pulmão ou no sangue.
Segundo o National Cancer Institute, cerca de 40% das pessoas em quimioterapia desenvolvem alguma complicação na boca. A mama não é exceção.
O que pode acontecer na boca durante a quimio de mama?
Os efeitos mais frequentes:
- Feridas na boca (mucosite): aftas e áreas vermelhas e doloridas, geralmente entre o 5º e o 14º dia após a sessão. Ardem para comer e falar.
- Boca seca: menos saliva, mais espessa — a boca “cola” e a comida não desce.
- Gosto de metal ou boca amarga (disgeusia): a comida muda de sabor, costuma começar na segunda semana.
- Maior risco de infecção: com a imunidade baixa em parte do ciclo, uma infecção dentária escondida pode virar febre — e febre nesse período pode interromper a quimioterapia.
- Candidose (sapinho): placas brancas e ardência quando o fungo da boca escapa do controle.
Alguns esquemas usados no câncer de mama (como os que combinam antraciclinas e taxanos) têm potencial maior de causar feridas na boca — mais um motivo para se preparar antes.
Como se proteger?
O cuidado tem dois tempos. Antes de começar, uma avaliação odontológica resolve infecções escondidas e deixa a boca pronta — é o que chamamos de PPT — Preparo Pré-Travessia. Procedimentos como extrações precisam de 7 a 14 dias para cicatrizar antes da primeira sessão, então quanto antes, melhor.
Durante o tratamento, o acompanhamento previne e alivia feridas, protege os dentes da boca seca e trata qualquer problema respeitando os dias seguros do seu ciclo — sempre em diálogo com o oncologista. É o Mãos Dadas.
Nada disso atrasa o seu tratamento de mama. Ao contrário: existe justamente para evitar as interrupções que uma boca desprotegida poderia causar.
Perguntas rápidas
Fiz só radioterapia na mama, sem quimio. A boca também sofre? Não. A radioterapia afeta a boca apenas quando o campo irradiado inclui a região da boca, cabeça ou pescoço. A radioterapia na mama não resseca a boca nem causa feridas orais — as glândulas de saliva ficam fora do campo.
Estou tomando hormonioterapia (tamoxifeno, anastrozol). Preciso me preocupar com a boca? A hormonioterapia não causa mucosite como a quimioterapia. Ainda assim, manter a saúde bucal em dia é sempre parte do cuidado — vale a avaliação de rotina.
Já comecei a quimio de mama sem ir ao dentista. Ainda dá tempo? Dá. O acompanhamento durante o tratamento previne e cuida das feridas, protege os dentes e trata o que aparecer nos dias seguros do ciclo. Procure um dentista com formação em odontologia oncológica.
Este artigo faz parte do guia Quimioterapia e a boca: o guia completo. Cuidamos da boca de pacientes de todo tipo de câncer — porque quem sente o tratamento é o corpo inteiro.
Fontes: NCI PDQ — Oral Complications of Cancer Therapies (National Cancer Institute); MASCC/ISOO (Elad et al., Cancer, 2020); INCA — Instituto Nacional de Câncer.