O que aconteceu
Nos últimos dias, o cantor Netinho, de 59 anos, atualizou os fãs sobre o tratamento de um linfoma não Hodgkin — um câncer que começa no sistema linfático. Ele contou ter concluído a quarta sessão de quimioterapia e descreveu estar vivendo “a fase mais sensível” do tratamento: por orientação médica, reduziu caminhadas, suspendeu a musculação e passou a manter isolamento social para diminuir o risco de infecções.
Aqui na Travessia, desejamos a ele uma boa travessia — com serenidade e cercado de cuidado. E aproveitamos, com respeito e sem qualquer especulação sobre a saúde dele, para explicar uma parte que costuma passar despercebida: por que, na quimioterapia de um linfoma, a boca precisa de atenção especial.
Câncer no sangue e no sistema linfático também afeta a boca?
Sim — e às vezes de forma ainda mais delicada. Isso reforça a regra que repetimos sempre: a quimioterapia afeta a boca em qualquer tipo de câncer, porque o remédio circula pelo corpo inteiro e atinge as células de renovação rápida que forram a boca. Linfoma, leucemia, mieloma: todos entram nessa conta.
No caso dos cânceres do sangue e do sistema linfático, há um detalhe a mais. Muitos desses tratamentos derrubam a imunidade de forma mais intensa — foi por isso que Netinho recebeu orientação de se isolar. E é justamente aí que a boca vira uma peça-chave.
Por que a boca importa tanto quando a imunidade cai?
A boca é habitada por milhões de bactérias e fungos que, em condições normais, convivem em paz com o corpo. Quando a imunidade cai durante a quimioterapia, esse equilíbrio se desfaz:
- Feridas na boca (mucosite) abrem, e cada ferida é uma porta de entrada para infecção na corrente sanguínea.
- Um dente com infecção escondida, que não doía nada, pode acordar e virar febre — e febre em quem está com a imunidade baixa é motivo de internação e, muitas vezes, de interrupção da quimioterapia.
- A candidose (o “sapinho”) aparece com mais facilidade, com placas brancas e ardência.
Nos protocolos de transplante de medula óssea — comuns no tratamento de linfomas e leucemias mais avançados —, a boca é vigiada de perto justamente por isso: é uma das principais portas de infecção grave.
O que protege a boca nesse período?
Três frentes, todas simples:
- Resolver o escondido antes. Uma avaliação odontológica no começo do tratamento encontra e trata focos de infecção que ninguém sente — é o PPT — Preparo Pré-Travessia. Extrações precisam de 7 a 14 dias para cicatrizar antes de a imunidade cair.
- Higienizar com segurança, mesmo quando dói. Escova macia, técnica delicada e enxaguantes sem álcool mantêm a boca limpa sem machucar — e boca limpa tem menos infecção.
- Acompanhamento durante o tratamento. Prevenir e tratar feridas, controlar a candidose e agir nos dias seguros de cada ciclo, sempre junto do hematologista. É o Mãos Dadas.
Nenhum desses cuidados atrasa a quimioterapia. Eles existem para evitar as interrupções que uma infecção na boca poderia causar.
Perguntas rápidas
Quem trata linfoma ou leucemia deve ir ao dentista mesmo sem dor? Sim, e o quanto antes. A maioria dos focos de infecção não dói — só aparecem no exame e na radiografia. Encontrá-los antes de a imunidade cair é o que protege o tratamento.
Posso escovar os dentes durante a quimioterapia se a boca está sensível? Deve. Parar de escovar aumenta o risco de infecção. O jeito é adaptar: escova extramacia, movimentos suaves e enxaguantes sem álcool. Seu dentista oncológico orienta a técnica certa para o seu momento.
Cuidamos da boca de pacientes de todo tipo de câncer — inclusive dos que tratam o sangue e o sistema linfático. Que a travessia de todos, famosos ou não, seja cercada de cuidado. Saiba mais no guia Quimioterapia e a boca.
Fontes: NCI PDQ — Oral Complications of Cancer Therapies (National Cancer Institute); MASCC/ISOO (Elad et al., Cancer, 2020); INCA — Instituto Nacional de Câncer. Informações sobre o tratamento de Netinho conforme declarações públicas do artista (CNN Brasil, Correio 24 Horas, julho de 2026).